Em termos de estrutura, Orleans é uma singularidade bem simples e direta. A escrita não é muito elaborada e a narrativa se resume basicamente a reunir Servos aliados para lutar contra Servos inimigos. No entanto, lendo com mais atenção agora, deu para entender bem melhor o conceito dos Rogue Servants: como a guerra é irregular e o Graal está nas mãos de alguém alterando a história, a Counter Force manifesta esses Servos pelo mundo para conter a anomalia, cabendo à Chaldea servir como a âncora e o suprimento necessários para organizá-los.
Por causa do formato acelerado do jogo na época, a participação de vários personagens acabou reduzida a meros momentos. Figuras lendárias como Siegfried e São Jorge acabaram funcionando praticamente como NPCs genéricos. Já outras, como a Kiyohime e a Elizabeth, pareceram estar ali quase que só para "decorar" a história, sem qualquer utilidade narrativa real. Mas o pior para mim foi o Sanson: o tratamento do personagem ficou péssimo, reduzindo o que poderia ser um dilema moral rico a quase um fetiche esquisito por decapitação e guilhotina.
Apesar dessas falhas, a singularidade tem seus pontos fortes. O conflito da Jeanne é legalzinho e a Marie Antoinette traz um contraponto muito bom, mas o destaque absoluto de Orleans vai para o Amadeus. A conversa dele com a Mash sobre o significado de ser humano valeu a singularidade inteira.
O Amadeus enxerga a humanidade como podre e impura tanto que se dedicou à música e rejeitou conexões pessoais, mas, ao mesmo tempo, ele é capaz de admirar a beleza que brota dessa mesma imperfeição. Ele ensina para a Mash que se tornar humano é um processo de ir além do que o mundo nos concede, construindo um universo próprio de escolhas e ideais. Quando a Mash dá uma resposta genérica sobre o que é "fazer o certo", o Amadeus planta a dúvida nela perguntando o que ela faria se o Fujimaru fosse mau ou tivesse que tomar uma atitude errada, forçando-a a enxergar a vida em tons de cinza.
No final da história, temos quase uma conclusão dessa ideia através do Gilles de Rais. O sentimento de raiva e revolta por ter perdido a Jeanne o transformou em alguém completamente desequilibrado. A sua obsessão fez com que sua versão Servo se tornasse um feiticeiro que corrompeu a imagem da própria santa para alimentar uma vingança pessoal, mesmo sabendo que a Jeanne original jamais desejaria aquilo.